Opinião: A fé e a identidade de um povo

 Artigo escrito por Andrea dos Santos*


Créditos: Divulgação / Arquidiocese de Fortaleza

Há quase 30 anos, Canindé entrou na minha vida e passou a fazer parte da minha história. Sou carioca e casada com um canindeense há quase três décadas. Nesse tempo, fui conhecendo as tradições da cidade e percebendo como a fé está presente na maneira de viver de seus moradores.

Em Canindé, a devoção não fica restrita às igrejas ou aos dias de festa. Ela aparece nas histórias contadas em família, nas promessas, nas viagens dos romeiros e no vínculo que muitos mantêm com a terra onde nasceram. Foi convivendo com essas manifestações que compreendi como a fé também participa da identidade de um povo.

A devoção a São Francisco das Chagas me mostrou que uma tradição religiosa pode atravessar gerações sem perder o significado para quem a vive. Em Canindé, no sertão central do Ceará, pais e filhos compartilham costumes e lembranças que ajudam a manter essa ligação.

Vejo a fé em São Francisco das Chagas como um ato de resistência. Diante da seca, da falta de água e das preocupações com a saúde e o bem-estar da família, o povo continua lutando. É nesse sentido que entendo a fé também como um ato político: não como disputa partidária, mas como uma maneira de resistir às dificuldades e seguir em frente. Na devoção a São Francisco das Chagas, muitos encontram coragem para enfrentar o dia seguinte.

Todos os anos, durante a festa de São Francisco, o marrom das roupas dos romeiros toma conta de Canindé. As famílias chegam de ônibus, de carro e de motocicleta. Há também quem percorre longos trechos a pé, muitas vezes no fim da tarde ou à noite, para fugir do calor. Quando observo essas caminhadas, não vejo somente sacrifício. Vejo, sobretudo, agradecimento pelas graças que cada pessoa acredita ter recebido.

Nas missas e na Casa dos Milagres, os pedidos e os objetos deixados pelos fiéis representam a fé e o agradecimento pelas bênçãos alcançadas, especialmente relacionadas à saúde. São gestos que carregam histórias pessoais de devoção e gratidão.

Ao longo desses anos, aprendi que a romaria não diz respeito apenas a quem chega à cidade para cumprir uma promessa. Ela também marca a vida de Canindé, que recebe os visitantes e mantém viva uma tradição passada de pais para filhos. A fé no sertão funciona como um alento e uma força motivadora.

* Andrea dos Santos é jornalista, moradora de Canindé e autora do livro “Promessas à Luz da Romaria", que utiliza a Festa de São Francisco das Chagas como cenário para um romance

Com informações de LC - Agência de Comunicação

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