Quando todos concordam, alguém deixou de falar

 Por Silvio Soledade, CEO da PlanoGestão e VP da APP Brasil

A inovação raramente nasce da unanimidade. Ela surge quando diferentes perspectivas encontram espaço para influenciar as decisões.

Imagine a seguinte cena. Uma empresa reúne a diretoria para decidir o lançamento de um novo produto. O estudo de mercado foi apresentado, os indicadores financeiros parecem consistentes, a comunicação está pronta e o cronograma prevê o lançamento para as próximas semanas. Depois de quase duas horas, o presidente faz a pergunta de praxe:

"Alguém tem alguma consideração?"

Silêncio.

Em segundos, o projeto é aprovado por unanimidade. Todos saem com a sensação de que tomaram uma boa decisão.

Meses depois, o lançamento fracassa.

Não porque a equipe fosse incompetente ou a estratégia mal construída. O problema começou antes. Naquela sala, ninguém conhecia de verdade o consumidor que a empresa queria conquistar. As pessoas tinham trajetórias parecidas, referências semelhantes e uma forma muito próxima de ler o mercado. Sem perceber, analisaram um problema complexo praticamente do mesmo ponto de vista.

Ao longo da minha trajetória, participei de centenas de reuniões em empresas, conselhos de administração e entidades de classe. A cena é hipotética, mas a situação é real.

Essa experiência me levou a uma conclusão que pode parecer contraditória: muitas empresas não deixam de inovar porque lhes falta criatividade. Deixam de inovar porque lhes sobra uniformidade.

Durante muito tempo, tratamos diversidade como uma pauta ligada sobretudo à inclusão e à representatividade. Essa agenda continua indispensável e precisa avançar. Mas há uma dimensão que considero igualmente importante e que ainda recebe menos atenção do que deveria.

Diversidade também é uma questão de inteligência organizacional.

Empresas existem para tomar decisões. Algumas definem investimentos, reposicionam marcas e determinam o futuro do negócio. Quanto mais complexa a decisão, maior deveria ser a preocupação em reunir diferentes formas de enxergar o mesmo problema.

Mercados são diversos. Consumidores são diversos. Por que, então, tantas organizações continuam tomando decisões estratégicas ouvindo pessoas que compartilham as mesmas referências?

Há uma diferença importante entre alinhamento e uniformidade. Alinhamento é compartilhar propósito, valores e objetivos. Uniformidade é esperar que todos pensem da mesma maneira. São coisas completamente diferentes.

As organizações mais inovadoras que conheci não eram aquelas em que todos concordavam rapidamente. Eram aquelas em que as divergências apareciam com naturalidade, porque havia confiança suficiente para discordar sem medo de ser desqualificado.

Sempre achei curioso que tantas empresas digam valorizar a diversidade, mas se incomodem quando ela produz seu efeito mais esperado: opiniões diferentes.

É aí que a cultura é colocada à prova.

Contratar pessoas com histórias, formações, idades, gêneros e experiências diferentes é um passo importante. Mas, sozinho, não transforma uma organização. A transformação acontece quando essas pessoas passam a influenciar as decisões. Quando uma ideia deixa de ser rejeitada só porque desafia o jeito tradicional de pensar. Quando quem enxerga o mercado por outro ângulo deixa de ser visto como obstáculo e passa a ser reconhecido como vantagem competitiva.

Por isso considero a segurança psicológica um dos ativos mais valiosos de qualquer empresa. Não porque elimina conflitos, mas porque cria um ambiente em que o contraditório deixa de ser ameaça. É nesse espaço que surgem as melhores perguntas. E quase toda inovação começa por uma pergunta que ninguém tinha feito.

Depois de tantos anos acompanhando organizações da economia criativa, continuo convencido de que cultura não é o que está escrito no site institucional, na parede da recepção ou na apresentação de onboarding.

Cultura é o que acontece quando alguém levanta a mão e diz: "Eu vejo essa situação de outra forma."

Se essa pessoa encontra espaço para ser ouvida, existe uma organização preparada para aprender. Se prefere ficar em silêncio porque acredita que será ignorada, talvez o maior problema daquela empresa nunca tenha sido a falta de diversidade.

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Silvio Soledade é fundador e CEO da PlanoGestão. Criada em 2012, a consultoria é focada em gestão estratégica, administrativa e financeira para empreendedores do setor de comunicação, tais como agências de publicidade, agências de comunicação, agências de eventos, produtoras de audiovisual, produtoras digitais e produtoras de games e tem como foco, preparar a empresa para crescer, revisando processos internos, avaliando portfólio de negócios, revisando estratégias de precificação, estabelecendo indicadores de performance.

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