Opinião: O silêncio também é machismo

 Artigo escrito por Pipo R. Ananias*

Créditos: Anny Malheiros Foto e Filme

Todo homem que nunca bateu em mulher acredita que não é machista. Ele segue em silêncio, mesmo quando os números apontam para uma situação grave de violência de gênero.

Segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.571 mulheres foram mortas por razões de gênero em 2025, no Brasil. Uma média de 4,3 vidas perdidas por dia. Em 2026, a “machosfera” se tornou tema oficial da redação da Unicamp, com destaque para o discurso de ódio contra as mulheres.

Entre o dado alarmante de 2025 e o tema em discussão agora, resta uma pergunta que raramente é feita: o que leva o homem comum a se manter em silêncio?

A definição de machismo é um conjunto de crenças que prega superioridade masculina, que naturaliza a subordinação das mulheres e a desigualdade de gênero. Se a esse conceito for acrescentado o silêncio dos homens diante de outros homens machistas, a definição fica completa.

É comum que essa descrição ofusque atos machistas mais "sutis" e igualmente perigosos: os cotidianos, praticados por homens que nunca bateram em mulher, mas… o pai que grita em alto e bom som “meu filho é macho, tem o saco roxo!” ou o tio que ensina o sobrinho que ele pode urinar em qualquer lugar, pois “ele é homem”.

Mas quando é para falar, todos se calam. Ficam calados diante de um homem assediando uma mulher na balada, ao presenciar um amigo fazendo uma piada contra a colega no trabalho, diante de um agressor praticando violência contra mulher ou quando um grupo de homens cria um movimento para disseminar ódio.

Nesse momento alarmante, o homem comum continua quieto. E a sustentação de tudo isso é um dos problemas que constroem, silenciosamente, o homem que agride, que acredita que é dono da sua parceira e que tem o direito de tirar a vida de uma mulher pelo fato de ela ser mulher.

De certo nem todos estão em silêncio. Existem homens falando publicamente, visitando escolas para falar sobre machismo, masculinidades e grupos de conscientização. E esse esforço já muda comportamentos.

Mas é preciso que o homem comum pare de cometer os atos machistas cotidianos, comece a refletir sobre seus atos e eduque meninos e meninas sem repetir os mesmos papéis de dominação que aprendeu. O machismo é um problema que cabe aos homens resolverem. É urgente acabar com a resistência de uma espécie de “seita” em que homens se protegem independente do que fizerem.

Romper esse ciclo não depende apenas de leis ou campanhas. Enquanto calar for mais confortável do que agir, o Brasil continuará contando mulheres mortas em nome de uma masculinidade que nunca soube dizer não a si mesma. O silêncio também é machismo.

*Pipo R. Ananias é jornalista, escritor e autor dos livros “Os Homens Não Conhecem o Amor” e “Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso”

Divulgação de LC - Agência de Comunicação

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